Exposição iMATERIAIS de CONSTRUÇÃO - Ensaio Aberto # 3 na Galeria Mergulho, Parede. Outubro 2024

 







iMateriais de Construção
Ensaio Aberto # 3
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Instalação, Performance fotográfica, Animação stopmotion e Maquetes
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Nos últimos quatro anos Rita Carmo tem desenvolvido uma Arqueologia e uma Etnografia doméstica emocional baseada no que ficou dos materiais de construção da sua casa de infância.

Manipulando estas peças essenciais da construção da sua própria identidade, investigou intuitivamente o impacto que tiveram, têm e terão no seu passado, presente e futuro.

O seu corpo-figura esteve sempre implicado em todas as obras criadas até agora.

Por vezes, fixa o momento performativo, ao chegar à frente da câmara após marcados os 10 segundos  de atraso no obturador; outras, manifesta-se através de roupas e objectos rituais que dão vida a criaturas imaginárias. Repetidamente, ela é protagonista de acções que nascem de uma oscilação entre consciente e inconsciente, estimuladas pelo seu processo de improvisação particular.

Simultaneamente directora artística, performer e fotógrafa do seu trabalho, tem procurado o momento da curadoria como forma de distanciamento e reflexão sobre o percurso realizado. 

Nesta exposição testa a ideia da Casa de Família como um centro de experiências e uma máquina de construção de identidade: a configuração dos espaços, as características dos revestimentos, os padrões dos tecidos e as proveniências dos objectos, revelam-se como material genético orientador de sensações, emoções, pensamentos, possibilidades de vida e comportamentos.

E se fosse possível criar uma casa (da memória) com apenas um móvel? Que condensasse as mais importantes experiências do passado embora já parcialmente fundidas com o presente, revelando pequenos ou grandes deslocamentos do ponto de partida original. 

E não seria ela uma grande casa animada, onde já se torna difícil distinguir o real do imaginado?

Um “Móvel-Mapa da memória” que se desdobra sempre mesmo a tempo e onde pequenas unidades móveis de grande importância se movimentam de forma imprevisível, provocando encontros improváveis e bailes de memórias ecléticas. Um lugar onde os interruptores podem servir para acender e apagar tanto as memórias boas como as traumáticas.

Nesse espaço, real-imaginário, onde é possível uma estrutura híbrida de memória oferecer-se um momento de reflexão e mergulhar os pés nas linhas da sua própria confecção ou brincar acrobaticamente entre memórias adjacentes,  as memórias materializadas em objectos podem ser palco de reuniões terapêuticas para clarificação e apaziguamento de outras memórias e emoções.

Um verdadeiro comboio-fantasma que desliza entre a tristeza, a alegria, o medo e a felicidade. Mas há sempre uma certeza: numa estrutura doméstica emocional como esta, há sempre razões para dançar!

Nestas últimas explorações arqueológicas, Rita Carmo, retira-se, assim, pela primeira vez, do centro da obra, oferecendo o espaço da sua memória a quem quiser percorrê-lo e senti-lo.

Em outras peças que aqui se expõem pela primeira vez, a sua característica autorrepresentação mantém-se viva em desdobramentos da criança-adulta que experimenta incessantemente estratégias de pertença, protecção e superação, manipulando e integrando os objectos icónicos da sua infância, e mantendo-os, e a si própria, sempre a 10 segundos da desmaterialização.

No seu conjunto, as obras e a artista, recebem-nos num envolvente espaço sonoro e odorífero que nos conforta, sobressalta e diverte, surpreendentemente povoado por visitantes inesperadas.

Mas, atenção, olhem sempre para ambos os lados ao atravessar este caminho! Uma memória pode sempre esconder outra, e uma delas pode ser a vossa. 



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