Residência artística "Se perguntarem por mim diz que estou no Tahiti!" Parte III na Galeria Mergulho

Pormenor do estudo para a performance "Jogo de Construção", Rita Carmo, 2021

    De 13 a 19 de Março fiz um novo período da residência "Se perguntarem por mim diz que estou no Tahiti!", agora na Galeria Mergulho, para continuar a desenvolver o meu projecto "Materiais de Construção".  

Tive a coragem de abrir o baú e dele saíram experiências e construções inesperadas. Pela primeira vez neste contexto apareceu a performance. 

Apesar dos altos e baixos de lidar com o processo criativo e os fantasmas que se acordam com ele, esta experiência permitiu-me uma grande sensação física e psicológica de liberdade. 

A repetir. Mantendo os fantasmas no seu lugar, claro.

A cada dia de trabalho publiquei um post que podem ler e ver na Galeria Mergulho.



Instalação "Prête moi ta plume pour écrir'amour" no Ateneu do Catorze | Artistas IN VITRO-Exposições temporárias em espaço fecundo

 

Foto de Francisco Salgado de Kessler

Notas para quem passa

Todos estes lençóis, fronhas, manta, xaile, candeeiro, pertencem à minha casa de família, ao meu quarto, à minha infância e adolescência.

Os cortinados estavam na sala e sempre me escondi atrás deles e passeei imaginariamente entre as flores, absorvendo as suas cores luminosas e vibrantes que abriam com o sol.

Os lençóis e as cortinas foram confeccionados com carinho pela minha mãe, e as peças de lã, com o mesmo carinho, pela minha avó Rosário. Tal como as camas, onde eu e o meu irmão dormíamos com os lençóis amarelos, foram feitas com carinho pelo meu pai.

Estas peças e experiências fazem parte do meu ADN, ajudaram-me a crescer, e a crescer com uma visão orientadora e específica da vida: cor, alegria, criatividade, beleza, energia, calor, afecto, protecção.

Não foi por acaso que não tive um quarto cor-de-rosa.

Todas as escolhas dos elementos de construção e decoração da nossa casa foram feitas pelos meus pais em conjunto e, provavelmente sem pensarem nisso, mostravam-nos os seus valores e aquilo que queriam para nós.

A minha mãe cantava-me esta canção* para me acalmar e ajudar a adormecer.

Adormecer sozinha em adulta quer dizer activar essa memória e poder em relação a mim própria, por isso hoje a canto também, alternadamente com ela, como uma dança da chuva para dormir (porque neste momento gostava mesmo de dormir como uma criança).

Empresta-me a tua caneta para escrever uma palavra, ouve-se na letra original cantada pela minha mãe.

Empresta-me a tua caneta para escrever Amor, ouve-se na letra que canto, porque foi isso que sempre ouvi/senti.

Mais tarde observei muitas vezes com admiração a forma aprimorada e carinhosa com que o meu pai engomava e dobrava os lençóis. Pedi-lhe para engomar mais uma vez estes lençóis e ele carinhosamente acedeu.

Os da cama de criança engomei eu, primorosamente e com o mesmo carinho.

Este é um espólio que quero reactivar, expor e proteger.

Como disse ao Francisco esta é realmente a minha paisagem protegida.

Embora não tenha sido perfeita nem tenha durado para sempre, durará para sempre em mim e nas peças que for construindo com estas memórias.

Rita Carmo

*Au Clair de La Lune

Foto de Francisco Salgado de Kessler

Foto de Francisco Salgado de Kessler




Até meados de Dezembro:

Ateneu do Catorze
Rua do Comércio, 12, 14 e 16
7630-462, São Luís
Odemira
Portugal


Participação na Abertura de Ateliers de Artistas na Oficina Impossível em Lisboa

Nos dias 6, 7 e 8 de Novembro as minhas peças Materiais de Construção"1, 1976-Série Biograf e La Vie en Rose estiveram em exposição. Foi um grande prazer  falar sobre estas obras e os meus projectos com pessoas muito atentas e interessadas. 


A canção que se ouve no fundo pertence a uma obra da artista Carolina Lapa.

Exposição Materiais de Construção-Ensaio aberto #1 na Galeria Mergulho | Online


'La Vie En Rose', Maquete para instalação, 2020. Todos os direitos reservados. Rita Carmo 2020.






"A casa é um corpo de imagens que dão ao ser humano razões ou ilusões de estabilidade. Estamos constantemente a re-imaginar a sua realidade: distinguir todas essas imagens, seria “dizer“ a alma da casa; seria desenvolver uma verdadeira psicologia da casa."¹ (tradução livre) 
Gaston Bachelard 

 


 Nesta exposição, o espaço da casa habitada torna-se lugar de outros lugares, e nele experienciamos o 'Mergulho' que dá nome a esta galeria. 

A casa como veículo de transmissão da identidade tem na exposição da Rita Carmo uma profunda relevância. As memórias da casa de infância e a intimidade familiar representadas por fotografias e objectos apropriados, ajustam-se a este outro lugar casa/galeria, criando novas leituras e renovados sentidos que se dirigem à sensibilidade simbólica e onírica de quem observa. O jogo do 'faz de conta', da manipulação cénica e da recriação de tempos passados trazidos para o presente, transformam este ambiente pessoal e íntimo em algo tão familiar quanto nosso - universal. 

 A multidisciplinaridade do projecto reafirma um processo de contínua busca de recursos, que se articulam e conjugam em séries performativas entre o corpo e o seu desenho/registo no espaço. O conceito de espaço é, aliás, fundamental em toda a prática da Rita Carmo. A própria natureza bidimensional da imagem fotográfica é ultrapassada, e adquire volume, e é precisamente desta ocupação/invasão espacial que opera o jogo impulsionador da imaginação. As figuras 'instaladas' adquirem formas e formatos inesperados, inquietos, perturbadores, presentes, ausentes e multiplicados, sempre na singularidade de um auto-retrato aqui exposto no lugar da casa.  

Segundo Gaston Bachelard, uma casa viva e luminosa renova-se a partir do interior. Aqui, a (auto)representação, manifesta-se exactamente através da interioridade, da artista, que se revela, revive e renova a cada intervenção no espaço. Deste diálogo resulta "uma verdadeira psicologia da casa" da infância. 

Paula Nobre 12.08.2020


¹ "La maison est un corps d´images qui donnent à l´homme des raisons ou des illusions de stabilité. Sans cesse on réimagine sa réalité: distinguer toutes ces images serait dire l´âme de la maison; ce serait développer une véritable psychologie de la maison."

Gaston Bachelard, La poétique de l´espace, 1957, p.34.



'Amigas para sempre', Instalação, 2020. Todos os direitos reservados. Rita Carmo 2020. Foto: Paula Nobre

 






Residência artística 'Se perguntarem por mim diz que estou no Tahiti!'

Esta é uma residência artística, auto-proposta e auto-gerida, que criei em Abril de 2020 em plena quarentena.
Surgiu como resposta à minha necessidade urgente de abrir espaço para o meu trabalho artístico, na altura em que o meu trabalho como formadora de desenho aumentou exponencialmente, e não tinha possibilidade de fazer absolutamente mais nada.
Aproveitei a semana de férias, que estava marcada, para embarcar para o Tahiti e mergulhar apenas e totalmente nos meus projectos artísticos que se encontravam suspensos desde há anos por falta de tempo ou espaço. 
Consegui entretanto disponibilizar entre Julho e Agosto mais um mês para esta residência  e conto estendê-la entre 2020 e 2021 por períodos de entre 1 semana e 1 mês para poder  fazer estes mergulhos e finalizar os dois projectos que tenho em mãos: Materiais de Construção e Auto retrato Múltiplo.
Para este segundo período convidei a Paula Nobre, também artista plástica e formadora na área da pintura, para ser o meu olhar exterior, alguém perspicaz que observa de fora o meu percurso e que por isso me pode ajudar a atingir os meus objectivos, a afinar processos e resultados, a alargar horizontes e contribuir para a minha motivação geral durante o processo.
A escolha do lugar simbólico do Tahiti revela o carácter paradisíaco que tem para mim dedicar-me ao meu trabalho artístico sem interrupções. 
Curiosamente não me recordei de que Gauguin se tinha exilado aqui mas acabei por encontrá-lo!

Tahiti Mahana-O Sol do Tahiti, Site specific, pinturas a pastel e carvão s/ papel, plantas, frutas, loiças, cortinado e toalha, Rita Carmo, 2020




Vídeo realizado como resposta à iniciativa da Oficina Impossível, lançada pela Catarina Pombo Nabais, para, como artistas, darmos o nosso testemunho acerca da forma como o Corona vírus e a quarentena estavam a afectar o nosso trabalho. Rita Carmo, 2020.